Artigo nº 017 - teórico

Como assim 'mundo sem partido'?


02/01/16 - O polêmico projeto ‘escola sem partido’, que ascendeu com a onda neoconservadora que tenta varrer a América Latina progressista (vide o caso bem recente de retrocesso político na Argentina e na Venezuela), tem sido objeto de discussão nos parlamentos de vários estados e municípios do país. O projeto, que a maioria do grande público ainda desconhece, busca proibir que os professores discutam coisas como política, atualidade, religião, teoria da evolução, sexualidade e gênero com os seus alunos. O projeto é contrário ao que é ‘politicamente correto’. A coisa é tão estruturada que tem até site: http://www.escolasempartido.org/. Ponto ORG, assim mesmo, como se fosse uma ONG! e hospedado em site nos Estados Unidos como se pode perceber.
É preciso compreender primeiro que o projeto entra em voga no momento exato em que se consubstancia o sucateamento das escolas públicas no âmbito sobretudo da infraestrutura, na hora precisa em que a crise mundial atual (que tem o Estado Islâmico como ponta do iceberg que levou à crise do petróleo vendido a 30 dólares) se agudiza (estimulando cortes seletivos - adivinhe aonde? - nas verbas com destinações sociais). Na realidade, a visão neoliberal de uma casta que assumiu o comando das secretarias de educação (em quase todos os Estados e municípios do país), tutoreadas pelo Banco Mundial, vem realizando ‘bem’ a ‘missão’ privatista. Falta agora sucatear o último entrave, a pedra no caminho do grande capitalista da educação, da mídia e dos bancos em sua tarefa de desmoralizar e destruir a escola pública: despedaçar o âmbito pedagógico, o cerne da própria escola, ou seja: o professor e sua consciência ético-científica.
Mas, como fazê-lo? Primeiro, impondo o bla-bla-blá pós-modernista, que desde a década dos oitentas vem, através da mídia e inclusive com a leniência de parte da cátedra colaboracionista, metralhando a razão, a verdade, a ciência, a justiça e a história, até levar a grande massa, ou grande parte dela, a desacreditar nestas ‘coisas’, coisas a todos tão essenciais e fundamentais em qualquer Era Histórica. Segundo, reduzindo a autonomia do professor em sala de aula: via overdose de tarefas, repetição de procedimentos, inclusão e submissão dos professores a sistemas informatizados de rede e provas externas, sem falar dos currículos minimizados e que vão sendo pouco a pouco entrecortados por projetos ‘multidisciplinares’ que são verdadeiros engodos e agentes de uma literatura best-seller digna de ‘black Friday’. Num terceiro momento, para liquidar de uma vez com a atividade pedagógica autônoma se tira da lama da história o dito ‘escola sem partido’, uma tentativa de congelar o cérebro do professorado através do terror e do ataque frontal à sua atividade ética e científica. Caso este projeto fascista venha a passar, o professor pode ser acusado de ‘doutrinador’ e acabar seus dias na cadeia! Um dos grandes problemas aqui é a eliminação do diálogo, visto pelos adeptos deste projeto nefasto como uma prática marxista e freiriana. Antes de Karl Marx e Paulo Freire, é bom que se diga, já existia o diálogo, que na verdade, surgiu quando surgiu nossa espécie há milhões de anos atrás.
É preciso perceber que uma grande parte dos que foram às ruas em junho de 2013, já o foram imbuídos deste espírito conservador, direitista e fascista: lá havia os que são violentos e intolerantes a princípio, os que incitavam a massa a mandar os governantes ‘tomar no c*’, os mesmos que gostam de usar o preto dos nazis (como numa revolução colorida a la Gene Sharp), os mesmos que mandavam baixar as bandeiras (vermelhas) dos partidos e movimentos (mais a) esquerda, enquanto jogavam bombas caseiras em militantes identificados como de esquerda, alegando que aquela passeata era uma ‘passeata sem partido’. Estive lá e vi.
O pior é perceber que este setor também conseguiu se colocar dentro de nosso próprio sindicato: o SEPE-RJ. Nele também há quem defenda o ‘sindicato sem partido’. Era só o que faltava: ao invés de lutarmos como sempre lutamos como profissionais da educação que somos, unidos em torno de nossas mazelas e com espírito solidário, independente de que filiação partidária temos ou não temos, terminarmos por nos deixar aparelhar pelo Partido do Sindicato Sem Partido (pSSp)!
Mas, como dizia, é possível perceber que o projeto ‘escola sem partido’ busca colocar a sociedade contra o professor, a direção das escolas contra o professor (o que em boa parte já acontece, já que ser ‘diretor’ hoje é ser ‘gestor’ deste projeto politicamente muito bem definido em prol do ‘partido da ordem’) colocar o aluno contra o professor, os pais de aluno contra o professor e quem mais possa contra o professor.
Mas, para uma sociedade de massas, parece natural que tudo vá se massificando, afinal, a produção em série, sobretudo a produção em série cada dia mais realizada com o auxílio de supercomputadores e robôs, tem necessariamente que levar ao consumo de massa e o culto fanático ao deus mercado. Portanto, há que ter padronização, ISO-9000, estandardização. Após o estabelecimento da vigilância massiva (denunciado pelo ex-agente da NSA e da CIA Edward Snowden), agora parece que chegou a vez da educação e da ciência serem massificadas. Afinal esta foi a orientação apontada pela ‘Conferência Mundial de Educação para Todos’, realizada  em 1990 em Jomtien (Tailândia), financiada que foi pela Unesco, Unicef, Pnud e Banco Mundial. E a orientação para o mundo foi clara: criar uma educação massificada, inclusiva, uma ‘educação para todos’. Mas, um dos custos desta operação é a queda geral do ensino, numa época em que o desemprego é pensado para ser estrutural e o ser humano projetado para o descarte e a coisificação alienante.
O ‘escola sem partido’ é a tentativa de uma elite saudosa dos tempos de ditadura, vide os Bolsonaro e outros especialistas em idiotia (defensores deste projeto aqui no Rio), de colocar a ciência a serviço da estupidez e de um Estado empresarial e, exatamente porque empresarial, fascista. Pessoas que confessadamente pouco estudaram - basta ver os inúmeros depoimentos dos que são favoráveis ao projeto feitos por exemplo na câmara municipal do RJ para perceber como são pessoas sem o menor traquejo científico -, mas que querem determinar o conteúdo que nós professores (conhecedores desta seara) devemos ensinar a seus filhos. Vendo bem, esta é a família típica que a mídia fabricou, consumista e conservadora, que agora quer 'mandar' e 'determinar' o pedagógico no país. No fundo esta família típica não quer participar, como seria democrático, de uma discussão bem mais ampla, vindo de baixo para cima, sobre o conteúdo escolar no país e nas diversas regiões brasileiras. Aliás, tenho notado que até mesmo nos meios familiares já é possível perceber o emergir de uma espécie de ‘família sem partido’, como se a divisão de opiniões, o diálogo, a discussão política fosse a causa da cisão da sociedade em classes e não a sua consequência. Como se a discussão política fosse entediante, um verdadeiro terror, e as demais conversas (futebol, artes, comércio, culinária...) caíssem bem na óikos (lar paternalista) e na pólis. Mas, num nível um pouco mais elaborado, os arautos do neoliberalismo querem travestir suas posições com base no tecnicismo. A técnica, que tem roubado e incorporado uma série de características e méritos humanos, vai transformando, conforme evolue, o ser humano em algo sem muito valor, algo talvez até mesmo detestável e descartável, substituível por máquinas, computadores, robôs e Inteligência Artificial - estes últimos, sim, competentes e livres de faculdades críticas. A técnica, imaginam os obturados, nos livrariam das ideologias e dos embates pela verdade e pela política!?
Os que cultuam este tipo de medo da política e esse pavor pela ciência crítica são os mesmos que gritam - como se fosse um pensamento inédito - o que a mídia fascista sempre gritou. Lavados e enxaguados no decorrer de muitos anos, acreditam piamente no 'perigo vermelho', que ‘comunista come criancinha’, que ‘Dilma e Lula são bolivarianos’, que ‘Chávez é ditador’, que ‘Cuba é uma ditadura’, ‘que o mercado é um deus’, enfim, que 'a esquerda é o problema e está caduca' e que, portanto, os ‘milicos’ golpistas (juntos com grupos de empresários associados e uma classe média fanatizada) usurparam o poder em 1964 com 'razão'. Comandados pelos Estados Unidos (CIA, IBAD e ISEB), os 'milicos' só podiam estar certos, mesmo que o certo fosse ser favorável ao politicamente INcorreto. Os novos golpistas, como os antigos, combatem os direitos humanos (são preconceituosos e a favor da tortura, criminalizam a infância, a juventude e os movimentos sociais...), execram a democracia, a cultura popular e as questões de gênero, são contra a igualdade econômica e, portanto, avessos à ideia de um mundo mais justo.

Renato Fialho Jr.