Artigo nº 018 - teórico

A III Guerra mundial: mundo unipolar x mundo multipolar?


05/04/16 - A operação Lava Jato, que completou dois anos em 12/03/16, é uma operação presidida pelo juiz paranaense de 1º instância Sergio Moro. Esta operação tem o auxílio luxuoso da PF e do MP, e, ao invés de efetuar de fato o combate a corrupção, parece está pondo de joelhos os Três Poderes do país (O Poder Executivo e Legislativo – eleitos pelo povo; e o Poder Judiciário – guardião da Constituição Republicana de 1988 – cujos juízes não são eleitos pelo voto direto).
Uma enxurrada de denúncias não comprovadas (por que são feitas sob premiação e sob tortura psicológica) aparecem aos borbotões e vão parar direto na mídia corporativa (liderada pela Globo que opera seletivamente nas escolhas). A operação envolve nomes de políticos e partidos políticos de quase todos os matizes (PSDB, PMDB, DEM, PP, PT, etc.) e instituições de todo o tipo. Moro mesmo já afirmou que a operação Lava Jato se inspira na Operação Mãos Limpas, desenvolvida anos antes na Itália. Mas, em ambas é possível perceber o conceito positivista e conservador de ‘limpeza’, ‘higiene’ e ‘moralidade’.
Mas, como se tudo isso já não bastasse, vem agora, pela primeira vez, uma denúncia vazada internacionalmente e que promete gerar muita polêmica. A denúncia que começa a ser difundida pela mídia corporativa lembra as supracitadas 'Mãos Limpas' e 'Lava Jato'. Refiro-me ao lançamento da operação ‘Panama Papers’, que acaba de ‘ser lançada’ ao mundo com 11,5 milhões de documentos contendo uma série de nomes supostamente usufrutuários de paraísos fiscais (offshores). Como acontece na Lava Jato, parece envolver muita gente, independentemente de nacionalidade e posição política. Mas, quem a mídia pretende mirar e atacar com a Operação ‘Panama Papers’? É cedo para saber. Mas há fortes suspeitas de que o alvo seja o BRICS.
É bom lembrar que tudo isso acontece em meio à uma grave crise capitalista (que muitos autores consideram superior à de 1929). Tudo isso acontece em meio aos escândalos de vigilância mundial (denúncia levada a cabo pela Wikileaks e pelo ex-espião da NSA e da CIA Edward Snowden). Tudo isso acontece em meio à queda de importância econômica dos Estados Unidos e do dólar como moeda de troca internacional (onde o Yuan, moeda chinesa, foi aceita pelo FMI como moeda acumulável em reservas). Tudo isso acontece em meio a uma suposta III Guerra Mundial (segundo o analista John Pilger a guerra mundial já foi iniciada, pois já estariam em andamento mais de 40 conflitos bélicos no mundo, sem falar dos golpes suaves e das Revoluções Coloridas). Tudo isso acontece em meio a uma crise ecológica sem precedentes (que envolve petróleo, água, informação, minério, tecnologia e uma suposta mudança climática).  
Considero que seria valioso pensar nesta que seria a suposta III Guerra Mundial: que guerra é essa, quem são seus atores e a quem interessa essa guerra, que a mídia vem escondendo?
Primeiramente, é preciso que a maioria das pessoas não se apercebam dela. 'A guerra não é uma guerra'. Assim como 'o golpe contra a democracia não é um golpe'. Sem dúvida, toda guerra costuma começar pela guerra psicológica, que passa pela dominação mental das massas. Daí o papel dos meios de comunicação corporativos, porta-vozes do capital financeiro e do imperialismo.
Em segundo lugar, é certo que as grandes corporações capitalistas, há algum tempo, estão empenhadas na construção de uma nova ordem mundial: unipolar, desnacionalizante e totalitária. Detentoras que são de mais da metade dos meios mundiais de produção, as empresas corporativas unidas querem (ou parecem querer) agora o controle político total do mundo.
Um artigo publicado no site ‘Brasil 247’, em 18/01/16, intitulado ‘Riqueza dos 1% mais ricos supera a de 99% no mundo’, pretende mostrar a situação. Vamos à síntese apresentada no próprio artigo:
‘‘Relatório da ONG internacional Oxfam, divulgado a dois dias do Fórum Econômico Mundial, em Davos,  revela que a desigualdade atingiu níveis alarmantes em todo o mundo; dados comprovam que o patrimônio do pequeno grupo de bilionários que compõem o 1% mais rico do mundo, do qual fazem parte empresários como Bill Gates, Carlos Slim, Warren Buffett e o brasileiro Jorge Paulo Lemann, já é maior do que a riqueza de 99% da população mundial; ‘No ano passado, a Oxfam estimava que isso fosse ocorrer em 2016. No entanto, aconteceu em 2015, um ano antes’, destaca a ONG, que pretende pressionar os líderes presentes em Davos a combater a desigualdade mundial; uma das medidas propostas é o fim dos paraísos fiscais’’.
Observe isso: ‘uma das medidas propostas é o fim dos paraísos fiscais’. Exatamente a mesma finalidade anunciada pela ‘Panama Papers’. Mas, o que estaria sendo combatido nesta operação, verdadeiramente? A desigualdade mundial, como propõe a Oxfam (uma espécie de Central Mundial das ONG’s), ou políticos eleitos por povos que tem optado por uma visão política multipolar de mundo?
Uma tese que nunca esqueço é a do sociólogo estadunidense James Petras, que certa vez afirmou que as ONG’s ‘não são ONG’s, mas empresários da pobreza’. Em texto intitulado ‘As duas faces das ONG’s’, Petras mostra como a política neoliberal (o capitalismo de mercado) vai se impondo de cima para baixo via Banco Mundial e de baixo para cima, via ONG’s. O papel das ONG’s, patrocinadas por empresas corporativas para diminuir suas cotas de impostos pagos aos governos nacionais, é ‘comprar’ (ou se preferir corromper ou envolver) os de baixo com o papo furado do empreendedorismo, trazendo-os para o lado do capital, ao mesmo tempo que vai substituindo o papel social do Estado e retocando a imagem da empresa como empresa socialmente responsável. É assim que as empresas vêm se nutrindo dos cofres públicos há anos – via ONG’s prestadoras de serviços, via empresas terceirizadas ou quarteirizadas, sem falar de outros procedimentos burgueses similares.
Não posso aqui, a esta altura, deixar de citar Karl Marx quando dizia em ‘A Miséria da Filosofia’, obra escrita em 1846-47 (e lá se vai tempo, mas não a atualidade do texto: parece escrito para hoje):
‘Veio enfim um tempo em que tudo o que os homens tinham olhado como inalienável se tornou objeto de troca, de tráfico, e podia alienar-se. É o tempo em que as próprias coisas que até então eram comunicadas, mas nunca trocadas; dadas, mas nunca vendidas; adquiridas, mas nunca compradas - virtude, amor, opinião, ciência, consciência, etc. - em que tudo enfim passou para o comércio. É o tempo da corrupção geral, da venalidade universal."
Ao citar este trecho de Marx quero chamar a atenção para a parte em negrito e mais especialmente para a frase final: ‘É o tempo da corrupção geral, da venalidade universal’. O que o jovem Marx está mostrando neste pequeno trecho é que a corrupção está na essência do próprio modus operandi capitalista. Assim sendo, toda grita contra a corrupção que não colocar em primeiro lugar a luta pela abolição do modo de produção capitalista é uma luta hipócrita, supérflua, conservadora ou ingênua. Creio que o movimento ‘Ocupe Wall Street’, com todas as suas limitações, se deu conta disso: que o verdadeiro inimigo do proletariado (ou do cidadão comum) é o grande capital, os gigantescos conglomerados capitalistas, que fazem em Wall Street suas apostas contra os povos de todo o mundo.
Outra coisa importante é a percepção de que a ‘utopia’ e a ‘revolução’, tão necessárias em tempo de crise sistêmica, até há pouco ‘nunca antes compradas’, estão finalmente caindo nesta qualidade. Não estou dizendo que toda a esquerda foi comprada. Nada disso. Quero dizer que a luta por dentro das instituições burguesas, tão defendida por Gramsci como forma de enfrentar o fascismo nos anos 20 e 30, está se tornando uma luta extremamente dura e penosa hoje. E o está por conta da capacidade maximizada que tem os meios de comunicação em se desapegar da ética, de destruir o que é justo e verdadeiro. A mídia dá fama e difama quem quer e quantas vezes quiser, num permanente Big Brother. O próprio conceito de ONG (Organização Não Governamental) está embaralhando tudo o que é público com tudo aquilo que é privado, quebrando o muro limitador dessas duas esferas, antes existente. Já a democracia, em meio à crise, vai sendo vista como um limitador ao poder político e econômico das grandes corporações. E por aí vai.
Logo, a guerra mundial que se parece levar a cabo é de outro tipo. A rt.com publicou hoje (05/04/16) uma notícia intitulada ‘Nova guerra global’, em que o analista internacional Vladímir Lepiojin afirma categoricamente:
‘Os sujeitos da nova guerra global não são Estados, como era corriqueiro em meados do século passado, mas os proprietários e os beneficiários do chamado mercado global. São eles e não os islamistas ou países concretos os que colocaram suas bases próximas às fronteiras russas, organizaram o golpe de Estado na Ucrânia, impuseram sanções econômicas contra a Rússia e fazem a guerra de desinformação. São eles que eliminam os que falam russo do Leste da Ucrânia e semeiam a discórdia entre os vizinhos da Rússia’.
Segundo a matéria, ‘as elites empresariais globais marcam a pauta da globalização, definem os objetivos estratégicos e determinam o grau e a direção do uso da força. Assim, afirma o autor (Lepiojin), países como Turquia, Catar, Polônia e Arábia Saudita são os regimentos de vanguarda da super-sociedade ocidental, chamados a realizar ataques em volumes e direções determinados’.
Pelo que diz o autor, esta guerra ‘não seria por território, mas pelo controle da consciência das massas e das elites’.
Segundo Lepiojin, ‘as modernas redes sociais e as grandes empresas de tecnologias informáticas podem ser comparadas às bombas atômicas, mas a destruição que provocam é suave e difícil de ser percebida’.
Em 09/03/16, a RT publicou um outro artigo intitulado ‘Três documentos que podem mudar o mundo’. O artigo se refere ao Acordo Transpacífico de Cooperação Econômica (TPP), à Associação Transatlântica para o Comércio e o Investimento (TTIP) e ao Acordo de Comércio e de Serviços (TISA).
Segundo os autores do texto, os jornalistas Leonid Krutakov e Alekséi Makushkin, do diário russo 'Kommersant', organismos internacionais como ONU, OMC, Banco Mundial e FMI não têm futuro. Para eles, ‘a humanidade entrou em uma nova era na qual competem diretamente megaprojetos de integração que a consciência pública identifica como a luta entre um mundo unipolar e outro multipolar’.
Os autores observam que o TPP, a TTIP e o TISA são mecanismos supranacionais neoliberais e corporativos. Contudo, salta aos olhos que enquanto por todo o mundo se pede a transparência nas instituições públicas nacionais, o mesmo não acontecem com estes novos mecanismos: todas as suas reuniões e pactos são cercadas de um sinistro segredo, onde jornalistas e repórteres nunca são convidados.
Outro analista, o argentino Pepe Escobar, considera que Brasil e Rússia estão na alça de mira da guerra híbrida norte-americana, que conteria duas fases: 1ª) a Revolução Colorida – que já estaríamos vivendo aqui no Brasil; 2ª) a Guerra Não-Convencional. Para ele, um dos objetivos principais da guerra híbrida é ‘impedir projetos transnacionais multipolares através de conflitos de identidade (étnicos, religiosos, políticos etc.) provocados externamente’.
Podemos concluir então que, no Brasil, o golpe travestido de impeachment é parte dessa concepção de guerra híbrida, que prevê o acirramento das lutas até o conflito bélico e a retirada do poder do governo ligado ao BRICS.

Renato Fialho Jr.