Artigo nº 024 - teórico

De modo capitalista de produção a modo de destruição das forças produtivas


20/02/2020 - Saiu em 11 de fevereiro de 2021, o Indicador Buffet que mede a relação entre o valor total do mercado de ações dos Estados Unidos e o PIB. O índice ficou em 228%, ou 88% acima da média histórica, “sugerindo que o mercado está fortemente sobrevalorizado”, afirmou o site da Current Market Valuation. Em outras palavras estamos possivelmente diante da confirmação de uma nova bolha especulativa. O mesmo índice se encontrava 71% acima da média histórica antes do colapso de 2000 (o estouro da bolha ponto-com) e pouco mais de 20% acima da média histórica às vésperas da crise imobiliária de 2008/09.

É claro que, sozinho, um indicador nunca reflete o mercado como um todo. Por isso vale perceber que o mercado de ações está inchado e sustentado em grande parte pelas mais baixas taxas de juros da história dos Estados Unidos: em torno de 1%. Mas toda essa orgia especulativa necessita de uma inflação baixa para se sustentar. A inflação de janeiro nos Estados Unidos teve alta de 1,4%, segundo o Departamento do Trabalho. A própria Morgan Stanley estima que a inflação ficará acima da média em 2021.

A corrida em busca do ouro e da prata é outro sinalizador de que o medo ronda os mercados. Outubro de 2020 fechou com o ouro em 1º lugar entre todas as modalidades de ativos do mercado, com rendimento de 21,9%, seguido de longe pelos bônus dos Estados Unidos, com 4,9%.

Mas tudo indica que há uma bolha de moedas virtuais se formando, com destaque para a Bitcoin. Segundo sondou a RT (Russian Today) neste 20 de fevereiro de 2021, a Bitcoin atingiu uma capitalização de mercado de um trilhão de dólares após atingir outro novo recorde: tendo sido negociada a incríveis 56.399,99 dólares a unidade. As moedas virtuais podem acabar funcionando como uma espécie de mercado paralelo piramidal como aconteceu com os papéis de hipotecas na crise de 2008-2009. A questão é saber quando essa bolha estourará! As projeções são de que esta moeda chegue a 100.000 dólares até o fim do ano. Elon Musk, o capitalista mais rico do mundo, tem investido grandes fortunas em moedas virtuais.

Sem dúvida existe uma demanda reprimida em face da pandemia. A crise sanitária derrubou os lucros de setores que já vinham sendo perturbados pela sua ação antiecológica (caso do petróleo e da indústria automobilística), mas afetou especialmente as empresas BEACH (de reservas, entretenimento e eventos ao vivo, companhias aéreas, cruzeiros e cassinos, hotéis e resorts) devido às proibições de viagens em todo o mundo.

Por outro lado, não há dúvidas de que outros setores devem muito do seu relativo êxito ao coronavírus: caso dos negócios online, games, do mercado de alimentos, supermercados, indústrias químicas e farmacêuticas, funerárias etc.

É fato que a pandemia da covid-19 ajuda mais a alimentar a crise, aprofundando mais e mais a lei de acumulação capitalista: o aumento da concentração de capitais que se dá paralelamente ao aumento exponencial da miséria e do flagelo humano. Isso é visível nas inúmeras falências ou cortes orçamentários das empresas que atuam presencialmente, nas fusões, nos subsídios dos estados neoliberais, nas privatizações e terceirizações e na formação do que eu chamaria de um “capitalismo cada dia mais inseguro”: onde trocar de ramo ou se readequar é uma atitude essencial para tentar subsistir às crises cada vez mais rotineiras e destrutivas. Assim sendo, o consórcio Innosight-Visual Capitalist mostra que, das empresas que compunham o índice S&P 500 da bolsa de Valores de Nova York em 1965, em média mantinham-se vivas 33 anos (a contar da sua fundação). Atualmente, “vivem” 22 anos e os prognósticos para 2027 é que elas fechem as portas, em média, após 12 anos de existência.  

Entretanto, dados mais importantes apontam para a crescente dependência do mundo para com o capital financeiro. Segundo o IIF (Institute of International Finance), no passado 1º trimestre de 2020, a dívida global atingiu o montante de 258 trilhões de dólares contra um PIB (Produto Interno Bruto) global de 77,9 trilhões, ou seja, 331% acima da economia real. O mundo deve mais de três vezes o que é capaz de produzir. Trata-se de uma dívida impagável, mas que é essencial para manter na subserviência a maior parte dos governos dos 220 países que compõem o mundo e manter escravizados ou em condições de pobreza e miséria a maior parte dos 7,8 bilhões de seres humanos que habitam o planeta. Outro dado preocupante é que a dívida cresce em todas as esferas: nas famílias, nos governos e nas empresas não-financeiras.

Por outro lado, a classe trabalhadora vê-se diante de um crescente quadro de desemprego, de subemprego (bicos), de precarização do trabalho (dado pela terceirização que destrói direitos trabalhistas e humanos realizadas via emendas constitucionais efetuadas por congressos corrompidos) e pela uberização que expõe o trabalhador à ilegalidade e a condições análogas à escravidão em plenas áreas urbanas (são motoboys, entregadores, mototaxistas, socorristas etc.).

Fora isso, o avanço ávido e desesperado do capital contra o trabalho só faz intensificar o quadro de destruição das condições de vida das massas cotidianamente alienadas e manipuladas, sem tempo para pensar uma vez que estão submetidas a toda modalidade de mais-valia (absoluta e relativa) e de salários que são constantemente revistos conforme a demanda e que é obtido por peça ou por entrega efetivada e controlada por aplicativos ponto-com. Pelas ruas do Brasil, como o Pivete da música de Chico Buarque, vemos estas motos furando sinais, entrando pela contramão, subindo por locais proibidos como calçadas, becos e passarelas para pedestres, muitos envolvidos ou vítimas de acidentes de trânsito. Ou flanelinhas, ambulantes que vendem águas e biscoitos entre carros nos engarrafamentos das grandes avenidas, os malabaristas dos sinais vermelhos e os pedintes (muitos transformados em empreendedores), os pedintes-com-cães, os soldados do narcotráfico, as vans legais e semilegais e toda sorte de trabalho lumpemproletarizado.

Já o avanço ávido e desesperado do capital contra a natureza perde a cada dia a pouca racionalidade que algum dia já teve. A crise ecológica está associada ao velho espírito colonialista de apropriação de terras para usufruto pessoal ou corporativo. Assim seguem as disputas pela Antártida, pelas florestas, pelas áreas indígenas, pelos corpos humanos (via medicina invasivas, chips, nanotecnologias, preconceitos raciais, sexismo, proibição do aborto), pelo controle das mentes (via Indústria Ideológica), pelo controle das favelas pelo para-militarismo das milicias (segurança privada), pelo controle da privacidade e das comunicações em rede (dos dados individuais comercializados), pelo controle da órbita terrestre (satélites artificiais), a conquista do espaço sideral, das informações de geoprocessamento, pelo controle do lixo (reciclável ou não) e pelo controle dos mananciais e da distribuição de água e de seu esgotamento, das energias de todo tipo. Até mesmo a religiosidade se une sem nenhum tipo de pudor a lógica do Deus Pluto, num tempo em que a democracia vai cedendo lugar à plutocracia e os fiéis cedendo lugar ao calvinismo mais atroz.

Os próprios estados, que antes vendiam a falsa ideia da neutralidade, cada dia mais parceiros do capital desregrado, vão se transformando apenas e cada vez mais em meros instrumentos de promoção do interesse privado, sendo cada vez mais diretamente dirigidos pelos imensos conglomerados internacionais (direta ou indiretamente, via corrupção). São cada vez mais incapazes até de demagogia, pois já não se envergonham de defender abertamente as pautas mais severamente antipopulares e criminosas. E de vez em quando até se gabam disso!

As condições objetivas para uma revolução de caráter socialista estão muito mais do que amadurecidas. Até porque o modo de produção capitalista cada vez mais se assemelha a um modo de destruição das forças produtivas. Mas, o capital feriu tão profundamente a classe trabalhadora e lhe impôs tanto medo de sua própria história e de seus gloriosos feitos passados (que não são poucos) que não conseguimos formar as condições subjetivas (o pensamento crítico e a ação revolucionária) capaz de pôr abaixo toda essa ordem tão mal estabelecida.

Renato Fialho Jr.